Ex-governador, Fleury afirma que não tomou decisão de invadir Carandiru
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quarta-feira, 17 de abril de 2013
      

Ex-governador, Fleury afirma que não tomou decisão de invadir Carandiru

 

Ele disse que estava em Sorocaba no momento da operação policial.
Fleury afirmou, porém, que a ordem de entrar foi 'necessária' e 'legítima'.

O ex-governador de São Paulo Luiz Antônio Fleury Filho afirmou nesta terça-feira (26), durante o julgamento de 26 PMs acusados de participar do massacre do Carandiru, que a decisão de entrar no presídio foi tomada pelas autoridades presentes no local. Ele ressaltou, porém, que a ordem foi "necessária" e "legítima".

Fleury disse que estava em Sorocaba na sexta-feira 2 de outubro de 1992, véspera de eleição municipal e data do massacre. Ele conta que chegou às 16h à capital paulista, após a ação policial no Carandiru já ter ocorrido.

“O que aconteceu, o que digo sempre, é que a ordem para entrada foi absolutamente necessária e legítima. Já existiam pessoas que estavam matando umas as outras. A polícia não pode se omitir", disse o ex-governador.Apesar de ressaltar que não estava à frente da operação, Fleury confirmou uma declaração anterior. Ele disse que “teria dado” a ordem para invasão caso estivesse em seu gabinete.

O que aconteceu, o que digo sempre, é que a ordem para entrada foi absolutamente necessária e legítima."
Luiz Antônio Fleury Filho,
governador de São Paulo na época do massacre do Carandiru

"Quando cheguei ao Palácio soube que a polícia já havia entrado no Carandiru. O secretário da Segurança [Pedro Campos] disse que havia necessidade e que contou com outras autoridades que estavam presentes na ocasião", afirmou Fleury.

Fleury disse que no dia dos fatos recebeu inicialmente a informação de que havia 40 mortos, depois 60, e que apenas no dia seguinte soube que eram mais de 100.

Governador apoia corporação 
Em seu depoimento, Fleury foi confirmou ter sido militar e elogiou a PM de São Paulo. "Os homens passam e a corporação fica", afirmou. Após ser perguntado pela advogada dos PMs, Ieda Ribeiro de Souza, ele confirmou ser sua a frase que diz: "minha polícia nunca se omitiu".

Ele também rebateu críticas por não ter participado diretamente das investigações. "Governador não é presidente de inquérito. Eu já disse à senhora que tomei conhecimento posteriormente", disse em resposta à advogada. Fleury afirma que administrou São Paulo sob inflação alta, discutindo a dívida do estado e vivia sob muita pressão.

O governador também deu ênfase às palavras no momento em que disse ter governado sob muita pressão política e econômica no perído. Questionado sobre sua responsabilidade no resultado do episódio, Fleury respondeu: "nenhuma".

Secretário
O secretário da Segurança Pública à época, Pedro de Franco Campos, falou em seguida ao ex-governador e confirmou a informação de que ele autorizou o coronel Ubiratan Guimarães a invadir o presídio.  Campos, no entanto, assim como Fleury, apontou para a existência de outras autoridades no local. "Nenhuma vez foi solicitada a minha presença.”

O ex-secretário defendeu a ação. “A necessidade de entrada da PM era absolutamente incontestável.” Ele afirmou que manteve contato com Antonio Filardi [à época assessor para Assuntos Penitenciários da Secretaria de Segurança Pública], que afirmava que o problema estava se agravando. Segundo ele, o receio principal era que o tumulto chegasse ao pavilhão 8. 
 

 

Primeiro dia
Na segunda-feira (15), o júri foi suspenso por volta das 22h. Durante o dia, os três sobreviventes do Carandiru, além de um agente carcerário e um perito criminal, afirmaram que tropas da Polícia Militar invadiram o segundo pavimento do Pavilhão 9 e executaram presos. As testemunhas relataram também alteração do local para atrapalhar a perícia e impedimento no socorro às vítimas.

A testemunha de acusação Antonio Carlos Dias foi a primeira a ser ouvida. Ele contou que a rebelião começou com uma briga entre detentos. Segundo ele, não foram feitas barricadas para impedir a entrada dos policiais na unidade prisional.

Antonio Dias disse que a ação da polícia dentro da penitenciária durou mais de uma hora. "A gente só ouvia barulho de metralhadora", disse. "Passamos por cima dos corpos para chegar ao pátio. Tivemos que escalar os corpos para sair do segundo andar e chegar ao pátio. Se caíssemos sobre os corpos, os PMs atiravam e matavam", declarou a testemunha.

O juiz José Augusto Nardy Marzagão perguntou ao sobrevivente como foi a reação dos detentos após a entrada da PM. "Não foi uma simples invasão, eles entraram atirando e matando", respondeu Dias.

A segunda testemunha da acusação ouvida foi o ex-detento Marco Antônio de Moura, que cumpria pena de 5 anos e 4 meses por roubo e tentativa de homicídio. Ele afirmou que alguns dos presos foram mortos com golpes de marreta.

"Fui me arrastando no chão até chegar à gaiola. Próximo da gaiola, tinha um policial. Ele contava: um, dois. No terceiro ele dava uma marretada. Esse cara matou muita gente no poço do elevador, a marretadas."

Ele afirmou ter se fingido de morto para sobreviver. "Fiquei no pátio muitas horas deitado. Um policial disse: quem está ferido, erga a mão. Parece que um anjo disse para eu não fazer isso. Quem levantava a mão era levado e nunca mais foi visto", afirmou Moura. "Os policiais diziam: Deus cria, a Rota mata e viva o Choque", segundo o ex-detento.

O agente penitenciário Moacir dos Santos, diretor da divisão de segurança e disciplina, relatou que houve diversos excessos por parte dos PMs. "No momento que iam atirando, iam gritando que nem índio descendo o morro", contou.

A quinta testemunha foi o perito criminal Osvaldo Negrini Neto, que à época trabalhava no Instituto de Criminalística. Ele diz que pediu para que o local não fosse mexido, mas o pedido não foi atendido. "Ficou claro para mim que não queriam que fosse feita a perícia", afirmou Osvaldo Negrini Neto.

O perito afirmou aos jurados que há compatibilidade entre o número de mortos nas celas e o número de buracos de balas encontrados. Ele afirmou que não há qualquer indício de que os presos estivessem armados e reagido à invasão. "É absoluta a certeza de que não houve disparo contra os atiradores", diz o perito.

O agente carcerário aposentado Moacir dos Santos afirmou que o julgamento não tem validade, porque faltam laudos periciais.

Ele culpa o comandante da operação pelo massacre. "Quem deveria estar preso é o coronel Ubiratan porque foi quem cometeu o erro de estratégia", disse, se referindo ao fato de ele ter colocado a Rota para entrar no presídio.